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06/07/2005 16:11
Sempre vejo cartazes ou faixas por gente procurando bichinhos desaparecidos. Procura-se gato ou cão, o dono é uma pessoa doente... etc.
Engraçado termos animais em casa e de repente, ao ganhar a rua, o bicho se desgarrar e muitas vezes nunca mais voltar para o lar que o abrigou. Sem a menor memória de onde morava.
Quando era menina na minha cidade do Interior, há muito muito tempo, se as pessoas não queriam mais cachorros ou gatos de uma nova cria, e que não conseguiam ser doados (imagine se alguém fazia castração naquela época), botava os filhotes no carro e levava bem longe de casa para “largar” à própria sorte.
Quando reflito sobre esses gestos tão comuns na época, sinto um nó na garganta pela crueldade contida, mas que no entanto, era natural. Parece que ainda hoje tem gente que se “livra” dessa forma de seus animais domésticos, principalmente quando eles crescem, atrapalham, ou as pessoas mudam de casa. Ainda tem gente fazendo dessas coisas horríveis no século 21. Infelizmente.
Mas por outro lado tem gente entristecida procurando nas faixas os seus bichinhos, que nem sabem que são tão amados e quase insubstituíveis. Mas pelo menos aqui na região onde moro, que é de classe média, quase não vejo animais andando soltos pelas ruas. Virou uma raridade ver um cachorro do rabinho enrolado mijando num poste. Por isso quando vejo algum, já penso logo que está perdido. Acho que isso é um sinal de progresso, porque se andarmos pelos bairros da periferia, as ruas certamente estarão infestadas de cachorros e gatos soltos, ou sem donos.
Os pesquisadores e sociólogos bem poderiam aproveitar mais esse fator como sinal de miséria! Mas voltando aqui à Elitópolis, nossos bichos estão enjaulados nas nossas jaulinhas, exclusivos para nosso deleite. E enquanto os gatos entediados ficam à espreita de passarinhos nas sacadas teladas, os cães esperam ansiosamente pela volta dos donos de seus escritórios para poderem dar uma fungadinha nos postes, sempre protegidos pelas coleiras e guias.
Novo mundo. Não sei se bom ou ruim.
E mesmo não vendo muitos cachorros nas ruas, meu vizinho já “pegou” na rua dois cachorros adultos para criar, mas nem sei se foi por aqui ou mais longe. Também não sei se tentou procurar os donos, mas um dos cachorros estava muito doente e morreu após uns 6 meses, e agora ele apareceu com outra vira-lata adulta, a quem deu o nome de Bel. A bichinha é tratada com muitos rapapés e mordomias, e quando observo aquele caso de amor fico pensando: nunca saberemos se ela foi maltratada e abandonada, ou se de repente fugiu de alguém que depois colocou uma faixa e nunca a encontrou, e agora, enfim... ela tem um novo lar, por sorte muito bom.
E vendo hoje perto da Vila Madalena um cachorrinho pequeno correndo sozinho pela rua, que originou todos esses pensamentos, já emendei com outros setores da vida. E se os amores das pessoas fossem assim, de repente nos desgarraríamos da pessoa amada, nosso atual dono (do coração), e correríamos pelas ruas sem saber onde pousar, perdendo o cheiro da casinha?
Nosso antigo amor botaria uma faixona “procura-se” mas, ou a gente prossegue o resto da vida vagueando e comendo restos, ou um novo amor nos acolhe, depois até lê a faixa, mas prefere ignorar e não nos devolver porque se afeiçoou? Ou nunca verá a faixa porque não mora no bairro e ignorará todo nosso passado para sempre, passando uma borracha, dando um novo nome e um novo aconchego.
De vez em quando ao fazermos gestos aparentemente sem sentido, ou sem correlação com a realidade, de medo ou de prazer, nosso dono pensará: o que terá acontecido a essa cachorra? E olhará nossos dentes e cicatrizes à procura de uma história.
Quantas pessoas agora estariam procurando o antigo amor, quantas pessoas encontrariam o amor perdido de alguém e seriam felizes? As ruas ficariam lotadas de faixas?
E a gente distraído, inconsciente, usufruindo das novas mordomias e esquecendo o passado. De amor ou ódio. Raçãozinha premium, agüinha limpa, cobertorzinho.
Ai meu Deus, tudo começou com a história dos cachorros...

enviada por Penélope






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